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Adozinda - A Faculdade de Ciências Ocultas
Sofia Ester
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Capítulo I

Hoje é dia de Assembleia Geral na Faculdade de Ciências Ocultas e os accionistas reúnem-se para discutir a abertura do ano lectivo.

Como feiticeira, Adozinda não podia deixar de participar neste projecto e de se tornar também numa accionista da faculdade. Partiu o porquinho mealheiro e, com as suas economias, conseguiu comprar três acções.

Adozinda é uma jovem de dezasseis anos e frequenta o 11º ano do secundário, na área de Artes. Trata-se de uma rapariga irrequieta e por vezes infantil, mas muito segura das suas opiniões e com uma ideia muito lisonjeira de si mesma. Adozinda é uma feiticeira e, tal como todas as feiticeiras que se prezam, dispõe de uma vassoura mágica. Entre os feiticeiros da Faculdade de Ciências Ocultas, é conhecida como a bruxinha, por ser o elemento mais novo da classe. A bruxinha herdou os conhecimentos de magia e a vassoura mágica da avó, uma senhora muito experiente nos domínios do oculto. Nos seus tempos livres, Adozinda pega na vassoura e sobrevoa a cidade de Lisboa, não se poupando nas piruetas e acrobacias.

Na Faculdade de Ciências Ocultas, Adozinda irá leccionar a cadeira de Aviação em Vassoura Mágica. A bruxinha pode ser nova, mas neste assunto particular não há ninguém mais competente e hábil do que ela.

Neste momento, Adozinda voa na vassoura em direcção à faculdade e, passados alguns minutos, já a vislumbra no horizonte. Para instalação da Faculdade de Ciências Ocultas foi escolhido um edifício antigo e apalaçado, de aspecto medieval. O palacete é formado por um sem-número de altas torres circulares, terminando cada uma delas num elegante e fino telhado cónico vermelho escuro. O revestimento é de granito negro e para fora espreitam janelas góticas de vitrais coloridos. Um jardim de ciprestes rodeia a faculdade e trepadeiras escuras polvilhadas de flores azuis sobem pelas paredes.

Embora o palacete tenha uma localização central na cidade de Lisboa e os terrenos centrais sejam quase sempre extremamente cobiçados, os accionistas conseguiram comprá-lo por um preço razoável, pois conta-se que a habitação está assombrada. O antigo dono já havia vários anos que lá não punha os pés e estava apenas à espera de alguém com capital suficiente para comprar a propriedade e com coragem para enfrentar as assombrações. Evidentemente, fantasmas e espectros não são problema para peritos em artes mágicas.

Adozinda aterrou sobre um dos terraços da faculdade e dirigiu-se ao auditório de formato circular, onde, naquela altura, os accionistas se reuniam. O auditório principal da faculdade, embora espaçoso, estava quase cheio pelos muitos accionistas. A Assembleia Geral ainda não tinha começado. Vivia-se um ambiente festivo, pois este era o primeiro ano de funcionamento da faculdade e os accionistas juntavam-se em pequenos grupos conversando e trocando opiniões.

Ao vê-la na entrada do auditório, um vulto dirigiu-se a Adozinda, para a cumprimentar. Era Ivandra, a reitora e a principal impulsionadora para a criação da primeira faculdade na área do oculto. Ivandra é um mulher rondando os quarenta anos, de aspecto sereno e calmo, mas confiante. Os longos cabelos negros raiados de alguma neve caem-lhe pesadamente até aos ombros. Os olhos escuros, profundos e frios como um espelho, sobressaem na face branca. Enverga um vestido preto de corte simples, que lhe chega até aos pés, realçando a elegância da figura fluida e o porte quase majestoso.

Tinha sido Ivandra, preocupada com o desaparecimento da magia no mundo, que reunira os colegas feiticeiros e fundara a Faculdade de Ciências Ocultas. Aliás, os accionistas da faculdade são os próprios professores. Ivandra achou que esta seria uma boa maneira de promover as Ciências Ocultas e formar os mais jovens nesta área do saber. E com o ensino dos mais jovens assegura-se a continuação da magia para as gerações vindouras. Devido ao seu empenho no projecto e por ser uma das principais participantes no capital da faculdade, Ivandra foi eleita reitora e, até agora, a sua gestão tem sido excelente.

- Olá, Ivandra! Está tudo a postos para se iniciarem as aulas na faculdade? - perguntou Adozinda.

- Sim, sim está tudo pronto.

- Sabe, achei estranho marcar uma Assembleia Geral logo no início do ano lectivo. Afinal, se o castelo já foi restaurado e as salas e laboratórios estão equipados, para que é necessário reunir?... - a bruxinha hesitou durante alguns momentos antes de continuar. - Não me diga que... surgiu algum problema?... Mas claro, a Ivandra também pode ter marcado a reunião apenas para festejar a abertura do ano lectivo. Provavelmente, é isso que os accionistas pensam, uma vez que estão todos tão sorridentes - sugeriu a rapariga embora achasse que essa hipótese não fazia muito sentido. Sabia que a reitora era uma pessoa muito sóbria e pouco dada a comemorações.

Ivandra olhou com surpresa para a rapariga.

- És muito perspicaz, Adozinda!... e, por isso, não te vou iludir. Surgiu de facto um problema...

Entretanto, uma terceira pessoa se aproximou. Tratava-se de Zulmiro. Zulmiro está no 4º ano do curso superior de Astronomia. O astrónomo tem uns olhos bondosos espreitando por detrás dos óculos redondos de intelectual, uns olhos que suscitam a confiança imediata por parte de quem o conhece e que lhe granjeiam muitos amigos. Como também dispõe de conhecimentos de magia, Zulmiro irá ensinar na faculdade. A sua cadeira será Atmosferas e Ventos Estelares e a Sua Influência nas Actividades do Oculto.

O astrónomo é um grande amigo de Adozinda. Ele sente um enorme fascínio pela energia efervescente e força de vontade da bruxinha. Por outro lado, o carácter infantil da rapariga suscita-lhe uma protecção paternalista de amigo mais velho sempre disposto a, quando necessário, dar uma ajuda ou a fornecer bons conselhos, que Adozinda normalmente não segue.

- Um problema?! - Zulmiro juntou-se à conversa.

- Há efectivamente um perigo no nosso horizonte - confirmou a reitora.

- Um perigo para a faculdade? Há algo que eu possa fazer para ajudar? - questionou o astrónomo, solícito.

- Espero que sim. Espero que todos os professores desta faculdade possam ajudar. Mas, por agora, não vou falar disso. Alguns accionistas ainda não chegaram e eu quero pôr todos a par do assunto ao mesmo tempo. Enquanto eles não chegam, vamos aproveitar o tempo. O nosso elemento mais jovem - e virou-se para a bruxinha - ainda não conhece os accionistas da faculdade. Gostarias que eu tos apresentasse?

Adozinda acedeu com entusiasmo porque gostava muito de conhecer pessoas novas.

A maioria dos participantes no capital da faculdade são uma massa anónima de pequenos accionistas, interessados num investimento para as suas parcas economias. Muitos deles até encaram o seu lugar de professores na faculdade como um segundo emprego, útil para acrescentar algum rendimento adicional às despesas da família. No entanto, há alguns professores em que, por uma razão ou por outra, é difícil não reparar e foi estes que Ivandra apresentou a Adozinda.

Um professor que se destaca entre os outros é o Limoso e é também seguramente o mais popular. Conhece os gostos de todos e nunca falta com um cartãozinho ou um telefonema no aniversário dos conhecidos. Trata-se de um verdadeiro relações públicas, sedutor e influente, sendo a sua única possível desvantagem neste campo a fisionomia quadrada, deselegante e a dar para o gordo. De qualquer modo, segundo o Limoso, quando mais jovem ele era "um lindo rapazinho de pele branca e angelical e de longos cabelos loiros cor de mel". Diga-se que o Limoso compensa este ponto fraco com a sua aparência impecável: sapatos de verniz, gravata e fato de escritório lustroso e bem engomado.

Este professor é proprietário de um negócio, segundo consta, imensamente lucrativo, na área de importação e exportação. Era intenção do Limoso participar com mais capital na sociedade, mas corriam boatos acerca da existência de alguns atritos entre ele e Ivandra, a reitora, e de que esta só o deixara entrar porque a faculdade precisava desesperadamente de dinheiro para poder pagar as dívidas aos credores. Apesar dos boatos, em público a relação entre os dois é bastante cordial. Talvez sejam mesmo só boatos!...

Outra professora seguramente muito conhecida é Fedra, uma mulher magrinha, de olhos esbugalhados e voz nervosa. Fedra espanta constantemente os seus pares com a publicação regular das suas teorias radicais e fora do comum, que despertam tanto a crítica como a curiosidade dos outros feiticeiros. Mesmo que não concordem com ela, todos anseiam por ler os inovadores artigos da senhora.

No início da carreira, Fedra e Ivandra trabalharam juntas num consultório de magia. Diz-se que o consultório acabou porque, um dia, Fedra perdeu a paciência e agrediu um cliente que não entendia as suas indicações. Isto após lhe ter dito "Até o meu cão o superava em inteligência" ou outra qualquer frase simpática do género. A partir daí, os clientes ficaram receosos e desistiram de frequentar o consultório, entrando este num período difícil e acabando finalmente por ir à falência.

Na verdade, além dos artigos excêntricos, outra razão da fama de Fedra reside na sua agressividade latente e na dificuldade de resolução de situações potencialmente conflituosas. No fundo, Fedra até nem é má pessoa. O que acontece é que os outros têm geralmente dificuldade em acompanhar os seus raciocínios rápidos e sinuosos, o que lhe faz esgotar depressa a já pouca paciência. Aliás, além de uns quantos gritos, uns quantos objectos partidos e uns quantos cabelos arrancados aqui e acolá não se lhe conhecem violências maiores.

O professor Haller é também uma figura de referência dentro da faculdade, não exactamente por si próprio, mas pelo pai, que foi um eminente e famoso feiticeiro. Infelizmente, o filho parece deixar bastante a desejar relativamente às capacidades do progenitor. De qualquer maneira, o nome Haller traz credibilidade à faculdade e Ivandra achou conveniente convidá-lo. Deram-lhe um lugar de destaque, como coordenador do curso de Ciências Ocultas Aplicadas à Informática, lugar esse com pequena margem de manobra de modo a não haver espaço para realizar grandes estragos. Nos folhetos de promoção da faculdade, o seu sobrenome, Haller, aparecia em grandes e grossas letras por cima da descrição do curso de Ciências Ocultas Aplicadas à Informática. O primeiro nome, em contraste, vinha em letrinhas pequeninas, quase imperceptíveis. O departamento de marketing julgou que, assim, as pessoas poderiam deixar escapar o primeiro nome e julgar que era o pai o coordenador do curso. Não há limites para a publicidade enganosa!

Por fim, temos o professor Albuquerque, um licenciado em Gestão que veio leccionar no curso de Ciências Ocultas Aplicadas à Gestão. Este é um curso que promete, pois, como é do conhecimento geral, a maioria das empresas tem uma contabilidade e uma gestão ocultas. O professor Albuquerque acabou a licenciatura em Gestão com altas notas, para satisfação do papá e da mamã e da família em geral. Depois, encaminhou-se logo para um mestrado e para um doutoramento. Trata-se, portanto, de um professor de carreira, contente com o seu modesto ordenado, com o fatinho que lhe assenta mal e que já está invadido de borbotos e com paciência suficiente para a progressão na longa e demorada carreira universitária. Neste momento, está a elaborar a tese de doutoramento e anda meio em stress com as trezentas páginas que irá ser obrigado a escrever. Adozinda, ao ser-lhe apresentada por Ivandra, sugeriu-lhe, a propósito da tese, a ideia de aumentar o tamanho da letra ou o espaço entre os parágrafos, de modo a atingir mais rapidamente o número de páginas exigido. Mas o professor Albuquerque, fiel à sua honestidade de trabalhador da classe média, argumentou que isso seria "fazer batota".

Entretanto, como já todos os accionistas tinham chegado e se aproximava a hora pré-estabelecida para a Assembleia Geral, Ivandra deu início aos trabalhos. Os accionistas estavam sorridentes porque julgavam que tudo estava a decorrer conforme o previsto. No entanto, ao repararem no olhar subitamente preocupado de Ivandra, muitos começaram a recear que alguma desgraça estivesse em vias de ser anunciada. E os que assim pensaram não estavam enganados.

 
 
 

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